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Artigo de cofundador da LeBov analisa a Inteligência Artificial (IA) na sociedade contemporânea

O engenheiro, professor e cofundador da LeBov, Rodrigo Gonçalves, participa como palestrante do The Developer’s Conference (TDC), evento que acontece entre 18 e 21 de abril, em Florianópolis (SC). Os principais conceitos de sua palestra, cujo tema é “Introdução à Inteligência Artificial e sua aplicação no mercado brasileiro”, estão expostos no artigo “Não tema a Inteligência Artificial”, que publicamos em nossos canais LeBov. Vale ressaltar que o TDC é um reconhecido encontro de desenvolvedores e empresas que abrange as principais comunidades de TI do Brasil. Reúne os melhores profissionais do País e busca discutir o uso da Inteligência Artificial em diferentes verticais da indústria. Rodrigo levará a sua expertise como um dos heads da LeBov, a nossa plataforma da pecuária de precisão.

 

Rodrigo Gonçalves

Recentemente tem havido uma enxurrada de artigos na mídia alarmando para os perigos da Inteligência Artificial (IA). Gente de peso como Bill Gates, Elon Musk, Steve Wozniak consideram a IA como uma das maiores ameaças à raça humana. Os computadores substituirão os humanos? Você vai perder seu cargo? Seus filhos vão ficar sem emprego? Saiba por que você não deve temer a IA.

Nick Bostrom, em seu livro “Superintelligence”, argumenta que o crescimento da inteligência da máquina é exponencial e não linear. Segundo ele, a partir de um determinado momento, os computadores superarão seus arquitetos e começarão a projetar sistemas cada vez melhores e estes, outros sistemas ainda superiores. Segundo ele, em algum momento, assim como ocorre em inúmeros filmes de ficção (como o Skynet no Exterminador do Futuro), os computadores passariam a ser a espécie dominante no planeta terra.

O grande avanço de algumas áreas da IA, como Deep Learning e Machine Learning, parece apoiar o argumento do crescimento exponencial da inteligência computacional. As máquinas estão se mostrando capazes de aprender a realizar tarefas que demonstram grande inteligência, como por exemplo, rotular objetos em imagens, dirigir carros, identificar pessoas, e coisas assim.

Então é o início do fim? Calma lá. Pular direto para conclusões catastróficas e apressadas é o que tem feito os caçadores de clicks disfarçados de jornalistas. Antes de concluirmos que a inteligência da máquina vai superar a inteligência humana, vamos colocar uma questão: “o que é Inteligência, cara-pálida”? Fazer esta pergunta é mais ou menos igual a falar que o rei está nu. Muitos (ditos) especialistas fazem cara de tela azul quando têm que responder a essa questão. Neste momento percebe-se que o medo da Inteligência Artificial é, na verdade, o medo do desconhecido. É o medo de questionar aquilo que nos faz diferentes dos outros animais. É o medo de reconhecermos que sabemos pouco sobre nós mesmos. O argumento de que uma inteligência superará a outra perde força quando não sabemos nem definir precisamente o que é Inteligência.

Ao ver uma máquina realizar tarefas que antes só nós humanos éramos capazes, sentimo-nos ameaçados em nossa humanidade. Por outro lado, não é difícil de ver que “ser inteligente” é muito mais do que reconhecer padrões ou explorar combinações muito rápido. E outros tipos de inteligência? E consciência? Poderão as máquinas ter sentimentos? Oops! Para responder estas perguntas temos que responder: “o que é consciência e sentimento, cara-pálida”?

Ocorre que não temos uma resposta definitiva para estas perguntas. Em particular, após um doutorado e 20 anos de trabalho na área, me questiono se algum dia a teremos. Pessoalmente, acredito que entender plenamente o que é inteligência, usando nossa própria inteligência, tem semelhanças ao problema de provar a consistência e a completude da matemática usando a própria matemática. Algo que foi provado não ser possível.

Hoje fazemos sistemas que conseguem atuar como humanos em alguns contextos limitados. Já há chatbots capazes de se passar por humano em algumas situações. Mas, observe que para agir como humano, não é necessário pensar como humano. A busca por entender o que é inteligência e criar máquinas “humanas” é uma neurose narcisista. Adoramos ver nossa própria imagem refletida em objetos criados por nós mesmos. Mas é graças a esta neurose que hoje temos ferramentas como Deep Learning, que nada mais são do que as velhas redes neurais, vitaminadas com a força bruta de máquinas superpoderosas e um toque de engenhosidade e criatividade dos arquitetos das soluções.

A verdadeira transformação não virá em um big-bang de um “ponto de singularidade”, que resultará em uma explosão de inteligência e máquinas que dominarão o mundo. A transformação já ocorre agora, aos poucos, na medida em que assimilamos os subprodutos da nossa cruzada narcisista. Hoje a IA já se faz presente, em nosso dia a dia. Ela está com você na rota determinada pelo Waze, no câmbio automático de alguns carros, noautocomplete do teclado do celular, em máquinas de fazer arroz, nas sugestões de filmes, livros e roupas feitas em sites de compras e quando o Facebook determina o mundo que você deve ver através de sua timeline.

Observe que muitos reclamam do autocomplete do celular, mas poucos desligam a funcionalidade. Outros tantos questionam o algoritmo de timeline do Facebook, mas poucos deixam de usar. O benefício percebido é maior do que o desconforto ou desconfiança gerados. A IA já nos completa.

Assim como a IA já faz parte de nós, cada vez mais nós seremos parte da IA. Explico-me: um arquiteto, por melhor que ele seja, não consegue fazer um projeto mentalmente e desenhá-lo, já em sua versão final, perfeito, em uma folha de papel. Ele precisa fazer rascunhos, interagir com o papel, externalizar seu pensamento, discutir com outras pessoas, fazer múltiplas iterações. Ele terá mais chances de fazer um projeto muito melhor usando um CAD do que um lápis, simplesmente porque o CAD fornece várias ferramentas de produtividade (CTRL-C / CTRL-V, por exemplo). Se o CAD fizer simulações 3D, cálculos estruturais e simulações de custos, será melhor ainda. Este tipo de ferramenta é o que chamamos de ferramenta de Amplificação de Inteligência ou AI. Ocorre que a IA (Inteligência Artificial) é uma excelente forma de implementar AI (Amplificação de Inteligência), pois facilita o diálogo entre homem e máquina.

Observe que a ideia de um arquiteto-robô (IA) se torna ineficiente quando comparada com o conceito de um arquiteto humano-computador (IA+AI), onde o lado humano contribui com o senso de estética, formas, contexto, e o lado computador contribui com cálculos estruturais, visualização em 3D, etc. Nós humanos somos excelentes no tratamento de informações aproximadas e incompletas. Apesar de haver toda uma área da IA para tratar imprecisão e incerteza (eg Fuzzy Logic), os humanos fazem muito melhor.

Somos computadores biológicos e químicos resultantes de milhões de anos de evolução. Evoluímos em seres sociais especialistas no uso da incerteza e imprecisão para reduzir a complexidade de problemas. Salvo notáveis exceções, o pensamento exato, algorítmico e preciso não é natural para os seres humanos. Além disso, nossa capacidade de processamento matemático e combinatorial é limitada. As novas capacidades intelectuais das máquinas as tornam mais próximas de nós, mas não para nos substituir e sim para nos completar.

Desta forma, a IA é assustadora sim. Mas não pelo medo do extermínio, mas por nos tirar de uma zona de conforto e nos obrigar a caminhar em terrenos inóspitos do autoconhecimento e otimização de processos produtivos e sociais.

Pessoas vão perder o emprego? Sim. Já perderam. Segundo um estudo divulgado pela McKinsey em 2013, em 2010 havia menos que 20% do número de telefonistas que havia em 1972, apesar do crescimento do PIB mundial no período. O número de 2018 deve ser significativamente menor. Por outro lado, a tecnologia impulsionou a indústria e o comércio de produtos e serviços, gerando outros empregos. Prefiro dizer que pessoas vão trocar de emprego, assim como aconteceu na primeira Revolução Industrial.  Até setores primários como agricultura e pecuária estão em transformação. O pecuarista/vaqueiro que não conseguir usar o celular e a internet para gerir seu rebanho irá se tornar obsoleto.

Só vai realmente ficar sem emprego quem não conseguir assimilar os assistentes computacionais no seu dia a dia. Para isto a palavra de ordem é: Educação. Um alerta vermelho no Brasil.

Há uma corrente de pensadores que defendem o ensino de linguagens de programação no ensino fundamental. Ideia espetacular, mas antes as crianças brasileiras têm que aprender matemática e ciências. Grande parte dos estudantes sai da escola sem saber resolver uma equação matemática simples. Saber matemática, lógica e filosofia se tornou mais importante do que nunca. Minha filha mais nova tem 12 anos. Faço questão de complementar o ensino formal de sua escola com aulas particulares de lógica/filosofia e música. Meus filhos mais velhos estudam na instituição universitária onde leciono. Lá tive a oportunidade de interferir de forma positiva no currículo e, junto com outros professores, criamos um currículo forte nos fundamentos (o que nos aproximam das máquinas), mas também forte naquilo que nos diferenciam das máquinas: conceitos de gestão, trabalho em equipe, e outros pontos importantes.

Como garantir seu emprego? Estude. Aprenda a incorporar e a entender a tecnologia do seu dia a dia. Use computadores e celulares com uma extensão de você e do seu cérebro. Aprenda a usar a máquina para aprofundar seu pensamento e não para acelerar a resposta no nível superficial. Entenda que usar máquinas não nos faz menos humanos, só humanos melhores (ou piores no caso daqueles que usam errado).

Tem gente que vê o carro autônomo como uma ameaça a toda uma categoria profissional. Por meu lado, não vejo a hora de ter um carro autônomo para poder viajar lendo meus livros de ciência e religião, ou ainda praticando flauta ou dormindo. Perguntar hoje: “e como ficam os motoristas?” é mais ou menos igual perguntar em 1972: “e como ficam as telefonistas?”, ainda em 1800: “e como ficam os artesãos?”.

Rodrigo Gonçalves é doutor em engenharia de computação, professor universitário, pesquisador e cofundador da LeBov, plataforma da pecuária de precisão, e da Nitryx, especializada em aplicações de IA e otimização em empresas

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