Origens da pecuária de precisão.
A pecuária é uma das atividades econômicas mais antigas da humanidade, considerada como sendo uma forma arcaica de formação de poupança das famílias ou de acumulação de capital pelas pessoas mais abastadas.

A pecuária é uma das atividades econômicas mais antigas da humanidade, considerada como sendo uma forma arcaica de formação de poupança das famílias ou de acumulação de capital pelas pessoas mais abastadas. Tanto é verdade, que a origem da palavra pecuária vem de pecúlio, que por sua vez significa qualquer soma ou reserva em dinheiro, do latim ETIM lat. peculĭum,ĭi pequena parte de um rebanho.

Com o passar dos séculos, as sociedades foram se desenvolvendo de forma isolada em cada continente, cada qual com seus hábitos e sua cultura e com os bovinos aconteceu algo parecido. Com o isolamento, esses animais foram se transformando de maneira diversa em cada continente devido às condições climáticas, sociais, alimentares, etc, dando origem às diversas raças que existem nos dias atuais.

Nas regiões onde a atividade pecuária foi pouco desenvolvida, como na Índia, com os animais vivendo em um ambiente natural e hostil, ocorreu, segundo a teoria darwinista, uma seleção puramente natural. Os melhores e mais adaptados ao meio resistiram e deram origem a uma raça, ou no caso da Índia, a várias raças. Os povos daquele país continental também viviam em certo isolamento e cada região conservou a sua raça de gado que, por sua vez, foi adotada por cada comunidade como parte da sua própria identidade social.

Entre as raças indianas podemos destacar o Nelore, com seu comportamento de manada, pois no meio ambiente, o indivíduo que fica por último se torna a presa da vez, assim como o Guzerá com seus chifres em forma de lira, que eram usados para se defender dos tigres que pulavam sobre seu dorso. Mas todos os animais indianos tem duas qualidades em comum, a resistência ao calor e aos ectoparasitas. Isto possibilitou o desenvolvimento da pecuária moderna tropical, responsável pela grande produção de carne atual e cujo potencial associado às mais modernas práticas e técnicas que descreveremos a seguir, será capaz de alimentar bilhões de habitantes no nosso planeta nos próximos anos.

Na Europa, a evolução da pecuária foi bem diferente, basicamente devido ao clima, às guerras, mas principalmente ao desenvolvimento sócio econômico daquela região, dando origem a dois grandes grupos de animais: os Continentais e os Britânicos.

Os Continentais são animais de grande porte, adaptados às condições de clima frio e com produção expressiva, mas que demandam grande quantidade de energia para sua mantença. Já com os Britânicos a história foi bem diferente. No caso deles, o desenvolvimento sócio cultural da sociedade britânica pesou mais forte, pois o povo do Reino Unido tem uma tradição secular no desenvolvimento e aprimoramento de raças de animais, não só de bovinos, mas também de cães, cavalos e outros. São diversas as raças criadas e desenvolvidas pelos britânicos.

Entre as raças britânicas de bovinos destacamos as duas principais, que são o Hereford e o Angus. Ambas possuem características produtivas muito semelhantes e de elevado valor zootécnico, não só pela altíssima produtividade mas também pela qualidade de suas carnes, capazes de produzir os cortes mais nobres do mundo. No entanto, ultimamente a raça Angus tem se destacado mais, devido ao enorme e bem orquestrado trabalho de marketing da raça, destacando suas qualidades especiais.

Nas Américas o desenvolvimento da pecuária profissional e comercial se deu em duas fases: a primeira e mais longa foi de 1500 até o início do século XX e aconteceu nas regiões de clima temperado, onde tanto as espécies de capim nativo quanto as raças européias continentais e britânicas se adaptaram perfeitamente, com um rendimento igual ou superior ao europeu. Sendo que no Brasil, a única região com essas condições naturais é o chamado Pampa Gaúcho, onde até os dias atuais os animais europeus reinam soberanos nos seus campos de capim nativo. Podemos observar que a primeira fase trouxe obviamente ganhos econômicos consideráveis, especialmente para países como Argentina, Uruguai, EUA e Canadá, mas sem desenvolvimento tecnológico significativo, apenas o aprimoramento genético e de técnicas zootécnicas básicas.

A segunda fase tem seu início no Brasil Tropical nas primeiras décadas do século XX, com as primeiras importações profissionais de gado zebu da Índia, mas que só ganharam força na década de 1960 com a segunda expedição de brasileiros, oriundos da região do Triângulo Mineiro, que importou daquele país um lote de animais de melhor qualidade e em maior número. Porém, os desafios tecnológicos ainda eram enormes, pois diferentemente dos britânicos, os indianos nunca haviam selecionado o gado zebu para produção, quando muito, os machos eram usados para tração animal, enquanto as fêmeas eram e são consideradas sagradas naquele país, o que torna impossível qualquer tipo de seleção.

Além da questão genética que ao longo dos anos foi sendo superada com técnicas de melhoramento, não havia praticamente até a década de 1960, nenhuma tecnologia agronômica no Brasil que fosse adaptada às condições tropicais, sendo que o pouco que se tinha era importado da Europa ou dos EUA. Para se ter uma idéia, não existiam variedades de capins bem adaptados ao nosso tipo de solo e clima, com exceção do Capim Colonião, que nascia bem apenas em terras de altíssima fertilidade. Apenas na década de 1970 começavam incipientes os plantios comerciais da primeira espécie de capim do tipo Braquiária, que ganham força com a fundação da Embrapa no ano de 1973.

Podemos afirmar então, que o desenvolvimento da agricultura e da pecuária no Brasil tropical se deve basicamente à tecnologia, ao ponto de conseguirmos transformar o nosso maior passivo no nosso maior ativo: O Cerrado Brasileiro.

Para ilustrar, os livros didáticos de geografia da década de 1960 no Brasil mostravam o nosso cerrado que abrange vários Estados do nosso país como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, grande parte de São Paulo, Bahia, Tocantins, e outros como área inútil para agricultura e pecuária. O uso de tecnologia mudou completamente esse cenário a partir da década de 1970, com ganhos exponenciais, ao ponto de superarmos em larga escala países que, em tese, nasceram prontos para pecuária, como nossos vizinhos argentinos. Assim podemos dizer que é possível superar as dificuldades através da criação e do uso da tecnologia, criando ganhos econômicos para os produtores e para o país, com geração de divisas e criação de uma cadeia produtiva de máquinas e insumos, institutos de ensino e pesquisas, direitos e patentes, etc. Tudo isso fruto de uma dificuldade inicial imposta pelo meio ambiente e pelas condições naturais de solo e clima tropicais.

Assim como nos últimos 40 anos tivemos um avanço surpreendente na pecuária tropical, acreditamos que estamos diante de uma nova fronteira do conhecimento, que nos levará ainda mais longe como iremos demonstrar a seguir. Chamamos essa nova revolução de Pecuária de Precisão.

Autor: Pedro Martins

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